Caríssima,
Já não somos mais aquilo que fomos, e disso, você sem dúvida já sabe. De fato, há muito deixamos de ser qualquer coisa, ambas presas a vestigios de erros, que a uma altura dessas eu nem sei mais a quem tangem. Não é necessário alarde, eu sei que a maior acorrentada sou eu, e apesar de tudo, entendo que essas correntes já tenham se tornado parte - ao menos que temporária - de mim.
O fato é que os fatos nos desrumaram, de tal forma e grau de intensidade, que hoje sinto que parte de mim também anda morta por conta dos acontecimentos. Esse endereço para o qual destino essa carta, já nem me é garantia de que você receberá meus sinceros pesares, o que chega a me preocupar, salvo alguns momentos em que tenho a clara impressão de que você já me compreendeu.
Penso que hoje, melhor do que nunca, consigo entender, apesar de tristemente, que o distanciamento que proporcionei, foi a mais pura prova de amizade que já dei a alguém. Não há nada que corroa mais do que a desconfiança, e decerto que o afastamento sincero é melhor que o falso afeto, peço que entendas que a minha sinceridade é muito mais forte que qualquer sorriso ou abraço meu. Acredite, apenas amigos demasiadamente verdadeiros viram a minha verdade, que é dura demais para ficar sendo escancarada.
Muitos alguéns são capazes de me julgar pelos meus julgamentos, mas ninguém sabe que essa foi a minha forma mais amortecida de veredicto. Muito pior já fizeram e fazem, e disso você tem entendimento, pois tem vivido ultimamente e conhece a face devassa das pessoas tanto quanto eu.
Não é que eu exija de você entendimento para isso. Não requer, por que eu sou simplesmente, um enigma. E vá saber por que, o fato é que hoje, vendo isso, imagino que não seja justo martirizar tanto alguém por um erro. A nenhum alguém. E por isso, talvez, tenha me afastado.
Como sempre, novamente eu termino um texto destinado a alguém, sem dizer nada. Mas você sempre foi boa com essas coisas de inventar significado, bem melhor que eu inclusive, que sempre fui incrédula demais.
Por fim, despeço-me pedindo para que fiques bem. Penso que há muito foi-se o tempo do reconciliamento, do qual eu também nunca vi-me sinceramente capaz. Farei o possível para me preparar para um futuro reencontro, que a vida é comprida demais pra se pensar no sempre. Estarei melhor da próxima vez.É uma questão de crescimento pessoal.