sábado, 27 de março de 2010

Gavetas

     Passam casas, carros, pessoas, árvores... Passa tudo, tudo e todos. Passageiros. Entram e saem como que sozinhos, sem se cumprimentarem, sem sorrirem, sem se olharem. E se cruzam olhares, por milésimos, os descruzam com a mesma rapidez, envergonhados com o desconforto da sinceridade.
     Passamos todos, trocamos trocos, subimos e descemos degraus, tocamos todos o mesmo sinal. Descemos, e nos recolhemos cada qual em sua gaveta (externa, que na interna estamos emperrados). E voltamos a acordar, amanhã.
     Todo mundo pensa, mas ninguém fala, somos todos mudos. Cada qual muito interessado em sua gaveta. Cada gaveta muito interessada nas suas meias velhas.
     E nós, a passar carros, e casas, e pessoas, e bichos... A olhar pelas vidraças engorduradas de “ex-transeuntes” cansados, com cara de paisagem bonita e mente de nenhuma paisagem.
     Todos feitos pra viver em “sociedade”, preocupados com o próprio umbigo, nos bancos dos ônibus. Todos encantados com a música em nossos ouvidos, todos ignorando o cara q diz passar fome ali na frente. Cada um preso em sua própria identidade. Cada qual a organizando como lhe convém.
      E pondo a vida pra rodar... Assim como as rodas que nos carregam, vêm e vão, nós, estáticos, esperamos o futuro vir. Passando os olhos pelo nada, muito preocupados com suas próprias meias velhas.
      Amanhã. Pegaremos os mesmos ônibus, trataremos dos mesmos rascunhos de conversa, nunca os usaremos. Passarão carros, casas, caminhões. Veremos alguns olhos. Talvez abramos as gavetas. Talvez, talvez, troquemos as meias.

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