sábado, 27 de março de 2010

Gavetas

     Passam casas, carros, pessoas, árvores... Passa tudo, tudo e todos. Passageiros. Entram e saem como que sozinhos, sem se cumprimentarem, sem sorrirem, sem se olharem. E se cruzam olhares, por milésimos, os descruzam com a mesma rapidez, envergonhados com o desconforto da sinceridade.
     Passamos todos, trocamos trocos, subimos e descemos degraus, tocamos todos o mesmo sinal. Descemos, e nos recolhemos cada qual em sua gaveta (externa, que na interna estamos emperrados). E voltamos a acordar, amanhã.
     Todo mundo pensa, mas ninguém fala, somos todos mudos. Cada qual muito interessado em sua gaveta. Cada gaveta muito interessada nas suas meias velhas.
     E nós, a passar carros, e casas, e pessoas, e bichos... A olhar pelas vidraças engorduradas de “ex-transeuntes” cansados, com cara de paisagem bonita e mente de nenhuma paisagem.
     Todos feitos pra viver em “sociedade”, preocupados com o próprio umbigo, nos bancos dos ônibus. Todos encantados com a música em nossos ouvidos, todos ignorando o cara q diz passar fome ali na frente. Cada um preso em sua própria identidade. Cada qual a organizando como lhe convém.
      E pondo a vida pra rodar... Assim como as rodas que nos carregam, vêm e vão, nós, estáticos, esperamos o futuro vir. Passando os olhos pelo nada, muito preocupados com suas próprias meias velhas.
      Amanhã. Pegaremos os mesmos ônibus, trataremos dos mesmos rascunhos de conversa, nunca os usaremos. Passarão carros, casas, caminhões. Veremos alguns olhos. Talvez abramos as gavetas. Talvez, talvez, troquemos as meias.

domingo, 14 de março de 2010

Flor de romã
Bambus na varanda
Rua calada .

Árvores em flor na rua silenciosa . Nem ônibus , nem grilos . A luz amarelada repousa sobre o brilho das pedras. Cheiro de gente nas paredes dos prédios . Flores rosadas pelo passeio repassam o quão frágeis podem ser .

Luz amarelada .
A minha sakura
Não dá cerejas .

sexta-feira, 5 de março de 2010

A folha

Eu não gosto de chuva .
Não estou acostumada
A ver as coisas caindo dos céus .
Mas hoje eu vi,
E nem sei se desgostei .
Uma folha
Na mais pura essência
Que as folhas podem ter
Caiu, vinda de ares.
Mas como fugisse,
Não tocou o chão.
Como quem está acostumado
À leveza das nuvens
E tende a temer a gravidade,
Quem se fixa aqui
Tem medo da insegurança dos céus.
E talvez por isso,
Nunca sonhe.
E assim foi ela .
O medo de tocar o chão
Fez nela, o que faz na gente
O medo de voar .
Alguém nos explique,
Que a gente nunca volta ao que foi .
Ou voa, ou brota,
E condiciona-se a novas temporadas .

terça-feira, 2 de março de 2010

Nuvens castanhas

Hoje eu sonhei
Olhei nuvens castanhas
Por entre verdes arborais
E me vi .
Vi , sim, meus olhos trêmulos de criança
E um leve toque imaturo
Que surge quando me sinto segura o bastante .
Entende ?
É que você despe meus olhos
Minha boca
Meus pensamentos .
E eu fico assim ,
Nua de armadura
Cega de maldades
Perdida num castanho
Que antes , eu desconhecia .
E sabe de uma coisa ?
Eu amo você .
Assim como amo o vento
Que traz meus cabelos e minha vida
De volta à realidade .
(:

[E não , o sinonimo de amar , nunca foi sofrer .]