sábado, 7 de agosto de 2010

Íris

Não se olha nos olhos de quem não se confia.
Olhos são o diário do mundo, vistos por mim.
Antes conquistarem meu coração, que meus olhos.
Já que, meu coração, é cego.

Em suma,

algo me motiva a escrever.
Sentimentos que, tomam de antemão lápis e papel, e se descrevem.
Egocêntricos.
Hoje, a motivação é o próprio papel. Sou tomada de uma vontade inescrupulosa de preenchê-lo.
Apenas pelo simples fato de um dia poder abrir uma gaveta, e folhear um apanhado de coisas que já fizeram parte de mim.
Parece-me trágico não ter no futuro, poeira velha no sótão da casa.
É como, um dia, acordar e não se ter um passado.
Isso.
A gente vive a vida, para depois olhar para trás, e ter a opção de soprar a poeira do sótão.
Caso contrário, se sobrevive.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Atriz

Propôs a si mesma
A hipótese mais simples.

Deixou de lado.

Cansou-se da excelência
Melhor, cansou-se de tentar.

Recolheu seus sapatos gastos.

Cansou de esperar elogios
De tentar se superar

Cansou de ser quem não era.

É dela todo o tempo do mundo
E a pouquíssima vontade
De teatrar com mundanos.

domingo, 4 de abril de 2010

Ponteiros

Aqui o relógio anda pra trás
Os versos que escrevi 
Já eram repetir demais
As grandes coisas 
Que eu não pude ver 
E eram reais
Nunca entendi o porquê ...

Aqui os relógios são reais
Os versos que escrevi 
Já eram ter que andar pra trás
As grandes coisas 
Que eu não pude ver
E eram demais
Não me fale de porquês ...

Aqui os relógios são demais
Os versos que escrevi 
Não eram grandes, nem reais
Já eram coisas 
Que eu não quis ver 
Nem fui capaz
Eu me esqueci dos porquês ...

sábado, 3 de abril de 2010

Velhos lençóis


Se, o tom das vozes ousam me ferir
E às onze horas eu te vi partir
Então me conta como hei de ser eu

Se a porta do quarto ainda está a abrir
E o som dos passos a me perseguir
Então me mostra onde eu fico só

É, quem dera ouvir de novo a tua voz
E me poupar de sujar os lençóis
Com as velhas gotas que eu já derramei ...

Se você me protegeu da solidão
Moldou minha'lma com a própria mão
Me mostra agora pronde eu vou fugir

Calço meus sapatos como já calcei
E falo as frases que nunca falei
Botando a nova alma a caminhar

É, quem dera ouvir de novo a tua voz
E me poupar de sujar os lençóis
Com as velhas gotas que eu já derramei ...

Justo quando eu chorava tu fostes sorrir
E à minha alma quisestes despir
Do puro sentimento que guardei

Ao fugir da aurora tu me destes mel
E às onze horas entregou-se ao céu
Rezando o credo que eu nunca cri

É, quem dera ouvir de novo a tua voz
E me poupar de sujar os lençóis
Com as velhas gotas que eu já derramei ...

sábado, 27 de março de 2010

Gavetas

     Passam casas, carros, pessoas, árvores... Passa tudo, tudo e todos. Passageiros. Entram e saem como que sozinhos, sem se cumprimentarem, sem sorrirem, sem se olharem. E se cruzam olhares, por milésimos, os descruzam com a mesma rapidez, envergonhados com o desconforto da sinceridade.
     Passamos todos, trocamos trocos, subimos e descemos degraus, tocamos todos o mesmo sinal. Descemos, e nos recolhemos cada qual em sua gaveta (externa, que na interna estamos emperrados). E voltamos a acordar, amanhã.
     Todo mundo pensa, mas ninguém fala, somos todos mudos. Cada qual muito interessado em sua gaveta. Cada gaveta muito interessada nas suas meias velhas.
     E nós, a passar carros, e casas, e pessoas, e bichos... A olhar pelas vidraças engorduradas de “ex-transeuntes” cansados, com cara de paisagem bonita e mente de nenhuma paisagem.
     Todos feitos pra viver em “sociedade”, preocupados com o próprio umbigo, nos bancos dos ônibus. Todos encantados com a música em nossos ouvidos, todos ignorando o cara q diz passar fome ali na frente. Cada um preso em sua própria identidade. Cada qual a organizando como lhe convém.
      E pondo a vida pra rodar... Assim como as rodas que nos carregam, vêm e vão, nós, estáticos, esperamos o futuro vir. Passando os olhos pelo nada, muito preocupados com suas próprias meias velhas.
      Amanhã. Pegaremos os mesmos ônibus, trataremos dos mesmos rascunhos de conversa, nunca os usaremos. Passarão carros, casas, caminhões. Veremos alguns olhos. Talvez abramos as gavetas. Talvez, talvez, troquemos as meias.

domingo, 14 de março de 2010

Flor de romã
Bambus na varanda
Rua calada .

Árvores em flor na rua silenciosa . Nem ônibus , nem grilos . A luz amarelada repousa sobre o brilho das pedras. Cheiro de gente nas paredes dos prédios . Flores rosadas pelo passeio repassam o quão frágeis podem ser .

Luz amarelada .
A minha sakura
Não dá cerejas .

sexta-feira, 5 de março de 2010

A folha

Eu não gosto de chuva .
Não estou acostumada
A ver as coisas caindo dos céus .
Mas hoje eu vi,
E nem sei se desgostei .
Uma folha
Na mais pura essência
Que as folhas podem ter
Caiu, vinda de ares.
Mas como fugisse,
Não tocou o chão.
Como quem está acostumado
À leveza das nuvens
E tende a temer a gravidade,
Quem se fixa aqui
Tem medo da insegurança dos céus.
E talvez por isso,
Nunca sonhe.
E assim foi ela .
O medo de tocar o chão
Fez nela, o que faz na gente
O medo de voar .
Alguém nos explique,
Que a gente nunca volta ao que foi .
Ou voa, ou brota,
E condiciona-se a novas temporadas .

terça-feira, 2 de março de 2010

Nuvens castanhas

Hoje eu sonhei
Olhei nuvens castanhas
Por entre verdes arborais
E me vi .
Vi , sim, meus olhos trêmulos de criança
E um leve toque imaturo
Que surge quando me sinto segura o bastante .
Entende ?
É que você despe meus olhos
Minha boca
Meus pensamentos .
E eu fico assim ,
Nua de armadura
Cega de maldades
Perdida num castanho
Que antes , eu desconhecia .
E sabe de uma coisa ?
Eu amo você .
Assim como amo o vento
Que traz meus cabelos e minha vida
De volta à realidade .
(:

[E não , o sinonimo de amar , nunca foi sofrer .]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Máscara sorridente

A moça bonita passou , novamente , a mão tímida pintada a vermelho no vestido de cetim . Observava com a destreza feminina, o preto no branco de sua fantasia colombina . Estava pronta para ir . Com o sol , já via a praça principal enchendo-se de gente de todo o tipo . E ela , assistia pela janela , apreensiva .
O rapaz acordou, balançado pelo colega de barraca . O sol já nascera , e uma hora dessas , o lado de fora da praça devia vibrar, cheio de expectativa . Vestiu-se depressa, lavou mal o rosto e a boca , e pôs-se a ajeitar-se . A fantasia branca e preta lhe caía bem . O único problema , era o cheiro forte de cerveja , que o pano adquirira no dia anterior . Logo , todo o ar estaria impregnado com aquele mesmo cheiro, e isso deixaria de ser um problema .
Saíram. E , arrastados por seu burburinho particular , foram subindo as ruas , sorrindo , cantando . Marchinhas de carnaval , contando historinhas, pedindo o dinheiro alheio ... Pouco importaria a letra . Era carnaval .
E foi bem ali . Vês ? Nos pés do maior morro , que se avistaram . Ela riu , como teria rido para qualquer um . A máscara lhe tampara a timidez . Naquele instante , seria capaz de sorrir para o próprio diabo.
Ele não . De cara pintada , era como sempre fora : ávido , jeitoso com as palavras . Era a primeira vez que perdia a fala em dois dias . Quiçá , era a primeira vez , desde que aprendera a falar . Só sabia sorrir .
Eram quatro passos . Com dois , ele estaria frente a frente da menina de batom . Os dois ali , parados , sorrindo ; e o mundo , passando ...
Ninguém , naquela correria , viria aquele Pierrot . Ninguém além dela mesma , saberia o que se passavam naqueles olhos mudos , naquele momento . Ninguém nesse mundo , merecia saber .
Ela nem sabia o por que . Não conseguia imaginar por que raios de motivos haveria de ter paradologo ali , a olhar para aqueles olhos ... Até que viu . Quando viu , entendeu . Qualquer um entenderia .
Teve vontade de tirar-lhe a máscara . Não sabia ele , da impossibilidade de um sorriso desmascarado . Nem tinha como saber . Não avançara os quatro passos .
Ela ? Ela teve vontade de ficar ali mesmo , sem avançar , nem retroceder . Queria era olhar . Queria era ver , só um pouco mais .
Um esbarrar . Foi só isso . O rapaz se virou para ver quem era , mas não era ninguém . Voltou os olhos : Sumira . Como uma aparição , entrara no meio do povo , fugida de outro encontro de olhos .
Passou-se .
Outro carnaval , e lá estava ele , e lá estava ela . A máscara gasta pelo tempo , ainda estava lá . Eles ainda sorriam . Sabiam que esperavam por isso . E eram só quatro passos ...
Quis tirar-lhe a máscara . Ainda não sabia , que a máscara e o sorriso , eram um só . E não soube , nos muitos carnavais que se sucederam . Estiveram ali , mas ele nunca soube .
Nunca avançou os quatro passos .

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Louge .

...

E tem feito tanto vazio
A medida do arrepio
De sentir a porta bater;

E o copo de rum que esquentava
No sobrado da sala
Agora congela a imagem .

Vês ?

...

[Poema antigo, com/para Nick . *.*]
Perde-mo-nos nas pedras deslocadas
Deste caminho intruso
Pequenos demais para virar estrelas
Grandes demais para deixar de brilhar .
O que , afinal de contas
Estamos fazendo em caminhos diferentes ?

Asas aposentadas

Prendê-mo-nos ao chão
Agarramo-nos ao triste
Fugimos do agora
Tentando ser reais

E conosco flutua
Areia que nos prende
Lamentamos, por instantes
Distantes demais

Voltamos a prender
Nossas asas na terra
Essa terra maldita
Que nos rouba a coragem

E nos tornamos prisioneiros
Dos sonhos que eram nossos
Viramos objetos
Escravos da miragem

Não cabe em nossas mentes
Nem em nossos corações
Que asas aposentadas
Ainda conseguem voar

Somos almas preciosas
Energia graciosa
Somos gente, somos tudo
Fomos feitos pra voar .

[Antiga também . Não tão bom , porém , feliz ... *-*]

Despedida

Desculpe
Minhas decepções
nada têm haver com você.
Desculpe
Meus defeitos,
Não são culpa sua .

Não pretendo
Estender essa carga
Que me faz um idiota
Perante essa
(des)humanidade.

Pretendo é agir .
Assim , como quem não quer
E traz mundos no olhar
Além de um pouco de si mesmo .

Que talvez ,
Não seja tudo
Mas é o que tenho .
Pro mundo ,
Pra mim .

Talvez seja pouco
Não sirva .
Ou demais ,
Para um mundo como o nosso,
Para alguém como você .


[Poema antiguíssimo , inofertado . =D]

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Caminhantes

A gente pode esquecer tudo
Pode sim, vem comigo .
Esquecer o que passou
E simplesmente ,
Caminhar .

Poderemos por aí
Brincar com pistas molhadas
Estampar sorrisos
Rir da própria vida
Caminhar .

Eu posso cantar
Pra espantar seus medos
E quando os medos forem meus
Você me abraça .
E a gente caminha .

Futuro em frente
Mais vento
Mais vida .
Vivamos !

Daqui a pouco, tudo vai mudar
Talvez sejamos outros caminhantes.
Por enquanto,
Vamos correr
"E pintar na tela da vida, a arte de continuar ..."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Leite derramado .



Se eu tivesse forças, gritaria, fugiria, choraria . Melhor, se me faltassem forças, talvez eu ousasse me esconder na cúpula .
Mas não . Eu já estou aqui . Eu já me pus à prova. Aceitei o desafio.
O que isso significa ?
Significa que amanhã, eu vou acordar, colocar a melhor roupa que me couber, e sair pra comer qualquer coisa na padaria da esquina . Significa, que talvez eu compre o jornal, leia as tirinhas da Mafalda e ria feito uma boba . Mais tarde, vou me sentar à essa cadeira, e escrever qualquer coisa, para me distrair . Depois, posso ligar a tevê, rir da propaganda eleitoral, fazer um brigadeiro de novela .
Tudo isso parece bom .
Eu poderia contar estrelas, ou histórias ... Quem sabe, levar o cão pra passear . Gostaria de comprar algumas peras ... Testar a receita do pote de margarina . De repente eu faço um check-up. Ou simplesmente, termino aquele livro que eu nunca desmarquei .
Queria mesmo era ficar por aqui . Dar murro na ponta da faca até cegar a lâmina . Mas eu tenho mais vida pra viver . E é isso aí .
Eu nunca fui de obedecer as regras do jogo , mas é pra frente que se anda .

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Minha inspiração não dá em ramos .
Infelizmente .


Queria poder escrever qualquer coisa,a qualquer momento .
Mas não é assim .
Eu sinto .
Cada palavra que escrevo . E talvez por isso mesmo, não escreva muita coisa .
Os nossos sentimentos
Não são como pétalas
Que dançam conforme o vento .
São sentimentos, ora !
Eles nunca estão no ritmo certo, e isso nos faz bambear . Nos faz sermos nós, imprevisíveis, sempre imprevisíveis.
Hoje não é um dia de muita inspiração para mim .
Amanhã, talvez, talvez .
E é isso que faz um dia após o outro ser tão mágico ...

Minha inspiração não dá em ramos.
Felizmente.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A bênção .

Passarás o tempo
A acompanhar
Os sóbrios passos
Trôpegos
De um bêbado .

Sorrirás o tempo todo
Morrerás ainda assim
Viverás como nunca
Sempre .

Correrás contra o relógio
Ainda que ele pare
Viverás num mundo seu
Terá prazer em dividir .

Saberás nunca saber
Sentirás nunca sentir
Viverás morrendo aos poucos
Amarás .

domingo, 24 de janeiro de 2010

Reticências.



Olha ...
Eu nem queria tanta tralha
Queria bagagem de mão
Mas a vida foi jogando
Me mandando carregar.
Disse-me que era meu fardo
E eu tive que ir levando...
Olha ...
Eu não queria ser assim
Mas não posso me dar ao luxo
De esconder quem sou
Para agradar à corte.
Não é de meu feitio,
Se você entende.
Olha ...
Os segredos que couberam
Entre essa porta, e essas paredes
Ficam aqui mesmo.
E assim que eu me for
Eles ainda ficarão.
Não que eu quisesse,
Mas não posso evitar os rastros
Visto que tenho pés
E eles insistem em se firmar.
No mais,
Reticências .